Sunday, July 2, 2006

E ser mulher cientista, ajuda ou atrapalha?

Confesso que eu nunca tinha parado para pensar no assunto antes de sair do Brasil pela primeira vez, já que no Brasil existem muitas astrônomas. Hoje em dia já estou acostumada, mas no início era difícil entrar em alguns ambientes e ser a única mulher, ou uma das poucas. Mas o que mais me chocou foi saber que ser mulher na astronomia e na maioria das outras ciências, atrapalha. Eu que sempre fui boa aluna e sempre me considerei uma das favoritas dos meus professores e professoras, me vi pela primeira vez sendo tratada ´diferente´ porque era mulher. As meninas americanas aprendem desde pequena quase tudo que aprendemos no Brasil, brincam de boneca, de pintar unhas, etc, mas aprendem também que são inferiores intelectualmente. Por exemplo, um dos preconceitos nos EUA é de que mulheres não são tão inteligentes quanto aos homes e, principalmente, que mulheres detestam matemática[1]. Tem até uma boneca Barbie que ao se apertar um botão diz, entre outras coisas, “matemática é muito difícil”. Imagine se sua filha ficar apertando o tal botão o dia inteiro, como as crianças geralmente fazem, no final do dia ela vai mesmo acreditar que matemática é difícil apesar de nem saber direito o que é matemática. Eu não sei bem de onde surgiu este preconceito, mas sei que existe. Sempre que converso com cientistas americanas elas contam casos que me chocam. Uma amiga minha astrônoma me contou que sempre que ela publica algum artigo com o primeiro nome escrito, ela recebe pareceres dos editores com um tom diferente e muito mais crítico do que quando ela publica com apenas a inicial do primeiro nome e o sobrenome. Pode ser coincidência, estatiscamente falando ela tem poucos artigos para dizer isto, mas sempre que posso menciono o caso dela para que outras astrônomas fiquem de olhos abertos.

[1] Este capítulo foi escrito antes do que aconteceu na Universidade de Harvard, EUA, em janeiro de 2005 quando o reitor, Lawrence Summers, fez um discurso dizendo que talvez haja menos mulheres na área científica e de engenharia não somente por causa do preconceito que elas sofrem mas talvez porque o cérebro das mulheres seja diferente do dos homens, ou seja um problema biológico. Ele ainda disse que as mulheres com família não parecem interessadas em trabalhar 80 horas por semana como os homens e por isto desistem da carreira. Várias mulheres que estavam na audiência durante o discurso saíram indignadas no meio da discussão. O assunto virou primeira página de jornal e o reitor já pediu desculpas em público. Eu nunca vou perdoá-lo pelo que disse, mas o agradeço por ter tocado na ferida! Espero que quando este livro estiver publicado Harvard já tenha mudado de reitor (Extra, extra, extra, o cara já foi demitido!!)

1 comment:

Priscila said...

Que absurdo saber que em um país tão "avançado" como os EUA aparenta ser, ainda encontremos tanto preconceito em pleno século XXI, compartilho da sua indignação e como futura astrônoma também lutarei contra essa ignorância de plantão.